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terça-feira, 11 de agosto de 2009

MARINA SILVA E SUPLICY PODEM PEDIR LICENÇA DE SARNEY

Senadores requisitaram cópia da carta que pede a licença; três petistas já assinaram documento

Christiane Samarco, da Agência Estado

BRASÍLIA - A menos de uma hora da reunião da bancada do PT, a senadora Marina Silva (PT-AC) e o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediram ao senador Cristovam Buarque (PDT-DF) cópia da carta em que a oposição e dissidentes da base aliada pedem o afastamento do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Segundo uma fonte dos partidos de oposição, eles manifestaram ao senador Cristovam a disposição de assinar a carta. O documento já conta com a assinatura dos senadores petistas Tião Viana (AC), Flávio Arns (PR) e Augusto Botelho (RR).
O líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), tem defendido de público que Sarney se licencie do cargo e que o Conselho de Ética acolha pelo menos uma representação contra o presidente da Casa. Mercadante só não assinou a carta, que já foi lida em plenário na sexta-feira, 7, porque fez consulta prévia ao presidente nacional do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), que apelou a ele para que não o fizesse.
Na reunião desta terça-feira, 11, a bancada do PT no Senado, que conta com 12 senadores, vai decidir se os representantes do PT no Conselho de Ética apoiarão ou não os recursos da oposição contra o arquivamento das ações contra Sarney, decidido pelo presidente do colegiado, senador Paulo Duque (PMDB-RJ).


PLANALTO E LÍDERES TENTAM ACORDO PARA INOCENTAR SARNEY E VIRGÍLIO


Renan e Sérgio Guerra dizem que guerra de representações no Conselho de Ética não interessa a ninguém

Vera Rosa e Christiane Samarco

O governo e os principais líderes aliados e da oposição já trabalham abertamente em favor de um "acordão" entre o PMDB e o PSDB para resolver a crise no Senado. Mesmo considerada difícil, a saída política para o impasse começou a ser construída ontem por interlocutores de peso dos dois partidos, na tentativa de salvar tanto o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), como o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).

Em conversas reservadas, porém, auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deram a senha para a trégua: pediram que os tucanos não ponham mais combustível na crise, se não quiserem ver o PMDB esticar novamente a corda.

Os principais articuladores da negociação são os líderes do governo, Romero Jucá (PMDB-RR); do PMDB, Renan Calheiros (AL); do PT, Aloízio Mercadante (SP), e o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Nem todos, porém, têm falado a mesma língua e há estocadas de parte a parte.

DILEMA NO PT

Os recursos impetrados ontem no Conselho de Ética por Virgílio e pelo líder do PSOL, José Nery (PA), com o intuito de reabrir as representações contra Sarney, já estavam previstos. Na prática, porém, a oposição não tem votos para aprová-los, a não ser com a ajuda do PT.

Pressionada de um lado pelo governo e de outro por eleitores, a bancada do PT vive um dilema. Mercadante disse a Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, que não tem como impedir o PT de apoiar a abertura de processo contra Sarney, por quebra de decoro parlamentar. O governo sabe que, se não for feito acordo, o PT pode se juntar à oposição para desarquivar ao menos uma denúncia. Mesmo assim, Lula aposta no racha petista para livrar o presidente do Senado.

Parte dos senadores do PT quer desengavetar a acusação que liga Sarney aos atos secretos por causa da nomeação de Henrique Dias, namorado de sua neta Maria Beatriz, para um cargo de confiança no Senado. O problema é que, para Sarney ser investigado, três senadores do PT com assento no Conselho de Ética (João Pedro, Delcídio Amaral e Ideli Salvatti) precisam endossar o recurso da oposição.

Embora Mercadante tenha considerado "grave" a denúncia em nota divulgada durante o recesso, Delcídio e Ideli são suplentes do conselho e não querem assumir a vaga de titulares para não mexer nesse vespeiro, já que são candidatos à reeleição, em 2010. Não é só. Mesmo que assumam, resistem a se indispor com Lula e travam queda de braço com Mercadante. "Vamos examinar tudo com rigor e equilíbrio, para formarmos opinião", argumentou Delcídio.

Mercadante também concorrerá a novo mandato e já recebeu avisos do Planalto de que é necessário salvar Sarney, em nome da governabilidade e da aliança com o PMDB em torno da provável candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência.

"Nós não vamos arquivar nem desarquivar nada sumariamente e nosso posicionamento não se dá somente em função de interesses políticos e eleitorais", disse Mercadante. "Não entendi essa lógica pela qual o líder do PT quer puxar o debate sobre o desarquivamento das representações, se nem do conselho ele é", provocou Jucá.

FHC

Até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso entrou na negociação e falou longamente ontem com Virgílio, por telefone. FHC sugeriu a ele "moderação, moderação e moderação". Com a ajuda dos advogados Técio Lins e Silva e Fernando Neves, Virgílio preparou uma defesa técnica, que será entregue hoje ao presidente do conselho, senador Paulo Duque (PMDB-RJ). Além disso, decidiu quitar numa única parcela a dívida de R$ 210 mil com o Senado por ter pago salário a um funcionário de seu gabinete que ficou 18 meses estudando teatro em Barcelona.

"Essa guerra de representações não serve a ninguém, muito menos à instituição", insistiu Sérgio Guerra, também alvo de denúncias (veja na página 6). "O PMDB entende que essa batalha não ajuda na solução do processo. Só agrava", emendou Renan.

Para o governo, o PSDB "queimou pontes" e precisa fazer um recuo estratégico para evitar que a disputa com o PMDB se torne sangrenta. Um auxiliar de Lula disse ao Estado que, se isso não ocorrer, "a coisa terminará mal" porque "vai sobrar para todo mundo".


GOVERNO BARRA PEDIDO DE EXPLICAÇÕES SOBRE CONTRATAÇÃO SUSPEITA DE ADVOGADOS PIAUIENSES

Por Raimundo Garrone

Os deputados da base do governo Roseana Sarney se mobilizaram e derrubaram o requerimento do deputado Edivaldo Holanda que desejava que o presidente da Caema, José Reis Moreira Lima, aproveitasse a sua presença em audiência pública, que acontece nesta quarta-feira na Assembléia Legislativa, para explicar a contratação sem licitação do escritório Rêgo Lobão Advocacia, com sede em Teresina.

Segundo a revista Veja, o Lobão piauiense seria sócio do advogado Marcos V inícius, que defendeu a coligação de Roseana Sarney no TSE, no episódio que cassou o governador Jackson Lago.

O valor do contrato foi de R$ 1,6 mi, o que levantou suspeitas sobre o seu real motivo. Desconfia-se que seria para pagar o serviço que Vinícius prestou à família Sarney para retomar o poder no Maranhão.

- Seria uma oportunidade de esclarecer esses fatos, mas infelizmente o governo não tem interesse – lamentou Holanda.

O presidente da Caema vai participar de uma audiência pública proposta pelo deputado Alberto Franco para discutir as condições de saneamento da Ilha de São Luís, o não funcionamento das estações de tratamento de esgoto, e o “mar de bosta”, com bem definiu Franco, as nossas poluídas praias.

A contratação dos advogados piauienses para defender a Caema no Maranhão foi denunciada em primeira mão pelo blog.


SARNEY VALIDA ATOS SECRETOS QUE DERAM GRATIFICAÇÕES A SERVIDORES

Decisão abrange 80 atos que destinaram servidores para funções.
Foram validados para os que assinaram documentos no exercício do cargo.

Eduardo Bresciani
Do G1, em Brasília

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), validou 80 atos secretos que deram gratificações a servidores da Casa. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União nesta terça-feira (11) e já havia sido publicada no Diário Oficial do Senado de sexta-feira (7).

Os atos validados dizem respeito à designação e dispensa de funcionários de cargos de chefia, os chamados FCs. Estas funções comissionadas são acompanhadas de gratificações que variam de R$ 1,3 mil a R$ 2,4 mil.

A justificativa para a validação destes atos é de que os servidores exerceram essas funções de chefias e chegaram a assinar ofícios e documentos oficiais da Casa. Se os atos fossem anulados, estes documentos poderiam perder o valor.

“O servidor efetivo no exercício de funções comissionadas atua de modo expresso, assinando documentos, emitindo certidões e atestados, exarando decisões e pareceres, dentre outros, do que não se vislumbra lesão ao interesse público ou prejuízo a terceiros”, justifica Sarney na decisão.

A Diretoria-Geral do Senado destaca que entre os atos estão dispensas de gratificação e há também caso de servidores que já foram dispensados da função por meio de atos públicos. Em outros casos, o servidor nem teria recebido gratificação ao ser designado para a função por já receber gratificação semelhante.

Na semana passada, o Senado abriu 79 processos para analisar a situação de servidores nomeados pelos atos secretos. Eles poderão ser mantidos na função pelos gabinetes, desde que esses atestem o pedido para a contratação e a prestação de serviços pelo servidor. Entre os 79 está Henrique Dias Bernardes, suposto namorado de uma neta de Sarney, que deve ser mantido no cargo que ocupa.


DILMA SABE QUE FALOU COMIGO, REITERA EX-SECRETÁRIA DA RECEITA


da Folha de S.Paulo, em Brasília

A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira reiterou ontem que esteve no gabinete de Dilma Rousseff (Casa Civil) e que a ministra lhe pediu para encerrar logo o processo de investigação nas empresas da família Sarney.

"Ela sabe que eu estive lá e sabe que falou comigo. A Erenice [Guerra, secretária-executiva da Casa Civil] também, porque esteve no meu gabinete para marcar. Não custava nada ela ter dito a verdade. Qual a dificuldade? Na minha biografia não existe mentira."


Ela afirmou que confirmou o encontro à Folha porque foi procurada pela reportagem. "Não preciso disso, estou passando um momento muito difícil por causa da entrevista. Não tenho costas quentes, não tenho ninguém para me defender. Não sou candidata a nada, não preciso de palanque."

Lina disse que "Erenice pediu o encontro e que era para ser sigiloso", por isso não foi acompanhada de assessores. "Estive lá, antes a chefe de gabinete dela foi ao meu gabinete, agendou isso para ser uma coisa informal, que não constasse nem da minha agenda nem da dela. Eu cheguei pela garagem, entrei sem identificação, conversei com ela e voltei."

Lina está de mudança para o Rio Grande do Norte. Foi demitida em 9 de julho pelo ministro Guido Mantega (Fazenda).


CENSURA: ASSOCIAÇÃO MUNDIAL DE JORNAIS PEDE AÇÃO DE LULA


Em carta conjunta enviada à presidência da República e ao Supremo Tribunal Federal, a Associação Mundial de Jornais e o Fórum Mundial de Editores condenaram nesta segunda-feira, 10, a decisão judicial que proibiu o Estado de S.Paulo e o estadao.com.br de publicarem informações sobre a Operação Faktor, mais conhecida como Boi Barrica.

O recurso judicial que pôs o jornal sob censura foi apresentado pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que é alvo das investigações. Os advogados do empresário afirmam que o Estado praticou crime ao publicar trechos das conversas telefônicas gravadas na operação com autorização judicial. Segundo eles, a divulgação de dados das investigações fere a honra da família Sarney.

A liminar foi expedida pelo desembargador Dácio Vieira, do Tribuna de Justiça do Distrito Federal e Territórios depois que o jornal divulgou áudios em que Fernando e José Sarney falam sobre distribuição de cargos no Senado.

Na carta, as entidades lembram "que a medida judicial de proibir as reportagens se constitui em um caso de censura e é uma clara violação do direito de livre expressão, que é garantido por inúmeras convenções internacionais, incluindo a Declaração Mundial dos Direitos Humanos". Juntas, as duas associações representam 18 mil publicações, 15 mil sites e mais de 3 mil companhias em mais de 120 países. (Do Estadão)

Leia a íntegra da carta

"Vossa Excelência Luiz Inácio Lula da Silva

Presidente do Brasil

Brasília, Brasil

10 de agosto de 2009

Vossa excelência

Em nome da Associação Mundial de Jornais e do Fórum Mundial de Editores, representando 18 mil publicações, 15 mil sites e mais de 3 mil companhias em mais de 120 países, expressamos nossa profunda preocupação com a medida judicial que proibiu a mídia de publicar informações sobre uma investigação policial acerca de um servidor público envolvido em corrupção.

No último dia 30 de julho, o juiz Dácio Vieira da Corte Federal de Brasília, ordenou que o jornal O Estado de S. Paulo e seu site parassem de publicar reportagens sobre alegados casos de corrupção de Fernando Sarney, filho do senador e presidente do Senado, José Sarney. O Estado de S. Paulo publicou transcrições de gravações da polícia, que incriminavam Fernando Sarney em casos de corrupção. A medida proíbe que qualquer meio reproduza as reportagens do jornal. O não cumprimento da medida acarreta uma multa de R$ 150 mil.

Gostaríamos de lembrar respeitosamente que a medida judicial de proibir as reportagens se constitui em um caso de censura e é uma clara violação do direito de livre expressão, que é garantido por inúmeras convenções internacionais, incluindo a Declaração Mundial dos Direitos Humanos. O artigo 19 da Declaração diz: "Todos têm o direito de livre expressão e opinião, incluso o direito de ter opiniões sem interferência e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras".

Respeitosamente pedimos a Vossa Excelência que faça tudo o que estiver ao seu alcance para garantir que esta decisão seja anulada e que seja permitido à imprensa publicar livremente reportagens sobre todos os assuntos de interesse público. Contamos com o compromisso do Sr. Para que no futuro seu país respeite todos os acordos.

Atenciosamente,

Gavin O'Reilly

Presidente da Associação Mundial de Jornais

E

Xavier Vidal-Folch

Presidente do Fórum Mundial de Editores"



TSE PODE TER AGIDO INCORRETAMENTE AO DETERMINAR A POSSE DE ROSEANA SARNEY NO CARGO DE GOVERNADORA DO ESTADO DO MARANHÃO


Por Marcio Santos

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, admitiu a subida de um recurso extraordinário (RE) para que o Supremo Tribunal Federal (STF) analise se, no caso da cassação do governador do Maranhão, Jackson Lago (PDT), e de seu vice, Luiz Carlos Porto, o TSE agiu corretamente ao determinar a posse da segunda colocada no pleito de 2006, Roseana Sarney (PDMB), ou se deveria ter convocado novas eleições no estado. O recurso admitido foi ajuizado pela coligação “Frente de Libertação do Maranhão” - que apoiou Lago em 2006.

Jackson Lago e seu vice, Luiz Carlos Porto, foram cassados em março deste ano, pelo TSE, por abuso de poder político. Na ocasião, a Corte Eleitoral determinou que fosse empossada a segunda colocada no pleito de 2006, a então senadora Roseana Sarney (PMDB).

De acordo com Ayres Britto, o tema questionado no recurso “é de índole eminentemente constitucional”. Isto porque a coligação sustenta que a decisão do TSE teria afrontado os artigos 77 e 81 da Constituição Federal de 1988. Os dispositivos tratam das eleições – em dois turnos – para os cargos de presidente e vice-presidente da República e da realização de novo pleito no caso de vacância nesses cargos.

Recursos

Foram apresentados outros recursos pela coligação e pelo próprio governador cassado, mas todos foram negados pelo presidente do TSE. Ayres Britto explicou que a discussão sobre a competência do TSE para julgar, originariamente, recursos contra expedição de diplomas de governadores depende apenas da análise de legislação infraconstitucional (artigo 276 do Código Eleitoral), e por isso não pode ser motivo de recurso para análise do STF.

Da mesma forma, a alegação de afronta ao princípio do devido processo legal não deve ser levada para análise do STF, disse o ministro. Com base na própria jurisprudência da Suprema Corte, explicou Ayres Britto, a tese de violação e esse preceito “pode configurar, quando muito, situação de ofensa reflexa ao texto constitucional”.

A discussão sobre eventual desrespeito aos parâmetros da razoabilidade e proporcionalidade também não deve ser encaminhada para análise do STF, enfatizou o presidente do TSE. A Corte Eleitoral analisou detidamente os fatos e provas contidos nos autos para entender que as condutas imputadas ao então candidato do PDT comprometeram a normalidade e o equilíbrio do pleito, frisou o ministro. Para rediscutir este tema, seria necessário, portanto, o reexame desse conjunto fático-probatório, o que não é possível em se tratando de recurso extraordinário, concluiu Ayres Britto.

STF

O RE é um recurso de caráter excepcional para o STF, e pode ser movido contra decisões judiciais, em única ou última instância, que possam ter ofendido norma da Constituição Federal. O recurso é apresentado no próprio Tribunal que emitiu a decisão tida como contrária à Constituição, para que seu presidente analise se existe, realmente, questão constitucional envolvida – caso em que o recurso é admitido e remetido para análise da Corte Suprema. Isso porque o STF só pode analisar recursos que tratem de temas eminentemente constitucionais.
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Acorda Alice: Que justiça seja feita.

(Informações da Assesoria de Comunicação do TSE)


ATÉ SARNEY QUER MAIS IGUALDADE


Por Alberto Carlos Almeida*

Sarney declarou: "Se houve crime para mim, houve crime para todo mundo". Curioso o desejo do senador de ser tratado igualmente. Se eu for punido, todos também terão que ser punidos. Se eu deixei de declarar imposto devido e pagarei uma multa por isso, então todos que fizeram o mesmo também deveriam pagar a multa. Aliás, pensando melhor, o que Sarney quer não é tão curioso assim. O desejo do senador se parece com o desejo da maioria dos brasileiros.

Sarney já foi senador pelo Maranhão, mas há tempos é eleito pelo Amapá. Quem aposta no porquê disso? Mais provável é que seu espaço político no seu Estado tenha se reduzido. Dizem que ele manda e desmanda no Maranhão. Se isso é verdade, então por que em 1990 foi candidato pelo Amapá e não pelo Estado em que manda e desmanda? Por que sua filha, Roseana Sarney, não conseguiu ser eleita governadora em 2006, tendo sido derrotada nas urnas por Jackson Lago, que ela recentemente derrotou na Justiça Eleitoral? Ainda que a decisão, no caso, tenha sido correta - os adversários da família Sarney realmente abusaram do poder econômico -, é algo de se estranhar. Quem abusou de poder não foram os Sarney, mas seus opositores. Pode ser.

Roseana foi eleita governadora em 1994, o que para muitos demonstra a força de Sarney em seu Estado. E foi reeleita em 1998. Poucos devem se recordar de que em 1994 o voto era 100% no papel, não havia urna eletrônica. Em todo o Brasil, a apuração do Maranhão foi a que mais demorou. Além disso, durante o processo eleitoral, quando iria ser divulgada pelo "Jornal Nacional" uma pesquisa que deixaria a candidata Roseana atrás do líder das pesquisas, Epitácio Cafeteira, faltou luz em todo o Maranhão. Justamente no bloco do noticiário no qual a pesquisa seria divulgada.

Naquela eleição ocorreu também a farsa do assassinato do ferroviário José Raimundo dos Reis Pacheco, que teria sido morto a mando de Cafeteira. Esse episódio foi fartamente usado por Sarney na propaganda eleitoral de Roseana, além de ter sido objeto da imprensa local, controlada, provavelmente sem abuso de poder, por Sarney. Não houve assassinato algum. Depois da eleição, Pacheco apareceu, como dizem, vivinho da silva. Antes do episódio, Cafeteira tinha vantagem de 12 pontos porcentuais sobre Roseana. Ele perdeu a eleição por 1 ponto.

Para muitos, todas essas ações mostram a força de Sarney no Estado. Para mim, mostram sua fraqueza. Se fosse realmente forte no Maranhão, o ex-presidente não precisaria dos votos do Amapá para ser senador. Se fosse realmente forte no Maranhão, Roseana e sua família não estariam hoje associados a suspeitas de controle sobre as centrais elétricas do Maranhão, sobre assassinato-farsa, apurações prolongadas e coisas do gênero.

Os recursos extraeleitorais supostamente utilizados pela família Sarney para vencer as eleições e dominar o Poder Executivo do Estado, se realmente o foram, mostram que a força não é tão grande assim. Todos sabem que o argumento da força é empregado quando não há mais força nos argumentos. Há Estados dominados pelo mesmo partido político ou pelas mesmas lideranças há várias eleições, sem que para isso tenha surgido toda sorte de suspeitas de fraude eleitoral. Não se trata aqui de purismos. Ao contrário. São muitos os indícios de compra de votos em eleições. Nossos tribunais têm cassado vários políticos por compra de votos.

A propósito, quanto a isso cabe uma questão. No caso da corrupção, o crime se aplica tanto a quem corrompe quanto a quem é corrompido? E na compra de votos, os dois lados são punidos? Quem compra e quem vende? Se quem vender o voto for preso, tudo indica, não haverá cadeia ou penitenciária que dê conta.

Quem dera o desejo de igualdade de Sarney fosse aplicado: todos os criminosos punidos. Senão todos, a maioria. Um dos debates mais frequentes no Brasil diz respeito ao fato de o eleitor não punir os políticos corruptos. É muito comum ouvir queixosos sobre a eleição de Collor para o Senado por Alagoas. Não só Collor, mas muitos outros políticos. Uma característica importante da votação de Collor é o seu padrão de votação. Ele foi mais votado no interior de Alagoas e menos votado à medida que se aproximava da capital. No Estado menos escolarizado do Brasil, o ex-presidente foi mais votado pelas regiões menos escolarizadas. Ele tem pouco ou nenhum apoio do Brasil moderno e muito apoio do Brasil arcaico.

Agora, por que Lula afaga Collor? Resposta simples: porque Collor não está preso. Se todos os políticos corruptos estivessem presos, não haveria aliança política com eles. É possível que alguém envolvido no processo de Collor envie um e-mail argumentando que ele não pode ser considerado corrupto porque nada foi provado. Assim, a absolvição dele e de outros políticos seria a prova de que não são culpados por supostos crimes de mau uso do dinheiro público. A causalidade seria a seguinte: se foi absolvido, então não é corrupto.

João Alves, o líder dos "anões do orçamento", ganhou numerosas vezes na loteria sem que isso causasse estranheza ou fosse prova em um eventual julgamento. Nos Estados Unidos, se uma sequência de números financeiros muito improvável acabar ocorrendo, isso pode ser considerado prova de provável fraude financeira. A sociedade americana está predisposta a obter provas contra esse tipo de crime. O inverso acontece no Brasil.

O desejo de igualdade é algo moderno, urbano, uma demanda de classe média, dos mais escolarizados. Quem mora no interior de Alagoas e vota em Collor aceita de bom grado a submissão. É o que denomino submissão voluntária. Vive-se, nesse contexto, uma vida completamente colada à sobrevivência, sem disponibilidade financeira, sem capacidade de endividamento, sem poder de consumo nem de barganha. Cumpre aceitar os mandamentos e as dádivas dos poderosos. Collor é um desses poderosos.

Veja-se o caso do policial americano criticado por Barack Obama por causa da prisão do professor negro de Harvard. O policial contra-argumentou e peitou o presidente. No Brasil, talvez o policial pensasse duas vezes no eventual risco de demissão no caso de enfrentar o presidente da República verbalmente e publicamente. Nos EUA, praticamente todos têm carro, seja Obama, antes de se tornar presidente, ou o policial. O mesmo se aplica aos bens e serviços de consumo: casa, viagens, utilização de voos como meio de transporte, utensílios domésticos, acesso à educação e saúde, etc. A renda não é a mesma, mas o acesso é universal. Não é esse o caso no Brasil.

O recente escândalo das passagens aéreas no Congresso não deixa margens para dúvida. Há pouco tempo tivemos o caos aéreo. Dizem que muitos brasileiros que nunca entraram em um avião passaram a fazê-lo. Ainda assim, são poucos os que tiveram a chance de voar. Só 17% dos brasileiros já entraram em um avião. Essa proporção é de 51% entre aqueles que completaram o ensino superior. Cai para 27% entre os que têm segundo grau completo e vai para míseros 8 e 9% entre a maioria dos eleitores de Sarney e Collor - melhor dizendo, entre os que nem sequer completaram o segundo grau. É também do Nordeste a menor proporção de pessoas que já entraram em um avião: 6%. Nos Estados Unidos, a proporção está por volta de 95% e isso inclui o presidente e o policial.

O desejo de mais igualdade tudo inclui. Igualdade perante a lei e igualdade perante as possibilidades de consumo são duas das maiores demandas. Todos os brasileiros de todas as faixas salariais trabalham muito. Os mais pobres sabem que terão menos acesso aos bens do que aqueles que estão em melhores condições financeiras. Não obstante, eles também querem comprar um carro, entrar num avião, viajar para o exterior.

O Brasil está plenamente representado na Câmara dos Deputados e no Senado. Lá há senadores e deputados tanto eleitos pelo minoritário Brasil moderno quanto pelo majoritário Brasil arcaico. Se queremos menos Collors, é preciso mais escolaridade. Também são necessárias mais ações da Justiça no sentido de condenar e retirar criminosos da vida pública. É preciso investigar, provar e condenar. Não podemos deixar toda a tarefa nas mãos dos eleitores. Eles têm seus limites.

* Sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record). E-mail: alberto.almeida@institutoanalise.com.br. www.twitter.com/albertocalmeida


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

OPOSIÇÃO ENTRA COM RECURSO CONTRA ARQUIVAMENTO DE DENÚNCIAS CONTRA SARNEY. PT VAI APOIAR INVESTIGAÇÃO

CONSELHO DE ÉTICA
Reuters
Bernardo Mello Franco, Maria Lima e Leila Suwwan - O Globo; Agência Brasil

RIO e BRASÍLIA - Com a assinatura de cinco integrantes do Conselho de Ética, o DEM e PSDB protocolaram na tarde desta segunda-feira, na secretaria do órgão, recurso contra o arquivamento de três denúncias encaminhadas pelo líder do PSDB Arthur Virgílio (AM) e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), na primeira leva de arquivamentos feita pelo presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ). Também nesta segunda-feira, o senador José Nery (PSOL-PA) entregou um recurso contra o arquivamento de duas representações do partido contra Sarney, mas recuou em relação às representações contra o líder do PMDB na Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL). A oposição ainda deve recorrer contra as outras sete denúncias contra Sarney arquivadas sumariamente por Duque.


Desta vez, Duque não tem como não encaminhar os recursos para o voto, no plenário do Conselho. Além dos cinco votos da oposição, para que os recursos sejam aprovados e aberto o processo disciplinar contra Sarney, são necessários mais três votos. São 15 membros do Conselho mais o corregedor. Como o presidente só vota em caso de empate, a maioria simples é de 8 votos. O PT, fiel da balança, deve divulgar nota anunciando que seus três representantes vão apoiar pelo menos uma investigação contra Sarney no Conselho. Uma alternativa é o agrupamento de parte das denúncias em apenas um processo.

Mas, nos bastidores, os petistas já avisaram que não darão o tiro de misericórdia contra Sarney, apoiando a abertura de um eventual processo de cassação. A decisão será oficializada nesta segunda-feira, após reunião no gabinete do líder do partido, Aloizio Mercadante (SP).

PSDB alega que no início da fase não é preciso coletar provas

O PSDB alega no recurso que neste início da fase processual não é necessária coleta de provas para a abertura dos processos. Para descartar as denúncias, Paulo Duque argumentou que elas se baseiam em recortes de jornais.

As representações do PSOL tratavam da suposta participação de Sarney na existência dos atos secretos e também da autorização do neto do presidente do Senado para trabalhar com crédito consignado no Senado. Segundo Nery, ao recuar em relação à representação contra Renan, a intenção do partido é "focar" nas denúncias envolvendo Sarney.

- É confusão demais. Temos que nos concentrar para ver se alguma coisa acontece. Então, é focar no Sarney, que foi quem nomeou o Agaciel (Maia, ex-diretor geral do Senado) há 14 anos - justificou Nery.

O senador acrescentou que até quarta-feira o partido irá recorrer do arquivamento das representações que pedem investigação sobre a denúncia de que Sarney não teria declarado à Justiça Eleitoral uma residência de R$ 4 milhões e também sobre o fato de Sarney ter se eximido de responsabilidade sobre a administração da Fundação José Sarney, o que está em desacordo com o estatuto da fundação. A fundação, que recebeu recursos da Petrobras, teve a prestação de contas negada.

A resolução número 20 do Conselho de Ética, alterada durante o processo de cassação de Renan, não prevê que, em caso de rejeição no Conselho, os recursos sejam votados no plenário da Casa. Mas o PSDB já avisou que prepara um estudo para entrar com uma ação judicial para garantir a deliberação dos recursos no plenário do Senado. Assinaram os recursos da oposição os senadores Heráclito Fortes (DEM-PI), Eliseu Rezende (DEM-MG), Demóstenes Torres (DEM-GO), Marisa Serrano (PSDB-MS) e Sérgio Guerra (PSDB-PE).

Heráclito deverá ser substituído no Conselho pelo suplente ACM Junior (DEM-BA), mas a troca ainda não foi feita e Heráclito continua como titular. Os mesmos senadores assinaram os recursos que serão protocolados pelo PSOL.

Antes da decisão do PT, o Palácio do Planalto já admitia que as investigações seriam reabertas. Apesar de contar com a retomada da apuração, o governo recebeu indicações de que sua base não permitirá que a análise das representações seja transformada num processo de cassação.


- Eu não perdi o sono. Me senti feliz da vida por fazer aquilo, porque a pressão era muito grande para que eu fizesse o contrário. Eu preferi agir com a minha consciência do que agir com o aplauso fácil - disse o senador.

Leia mais:



SUPREMO ARQUIVA HABEAS CORPUS CONTRA CENSURA AO ''ESTADÃO'' NO CASO SARNEY


William Maia - 10/08/2009 - 21h00

O ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), arquivou um pedido de habeas corpus contra a decisão judicial que proibiu o jornal “O Estado de São Paulo” de publicar notícias sobre a operação Faktor (ex-Boi Barrica) da Polícia Federal. Celso de Mello considerou que o HC não é o instrumento jurídico adequado para questionar a decisão. Com isso, o jornal continua proibido de noticiar o caso.

Leia mais:

A investigação tem como principal alvo o empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP). Ambos foram flagrados em interceptações telefônicas da operação, posteriormente divulgadas pelo jornal, negociando um cargo no Senado para o namorado de uma neta de Sarney.

Depois da publicação dos grampos, o desembargador Dácio Vieira, do TJ-DF (Tribunal de Justiça do Distrito Federal), atendeu a pedido de Fernando Sarney e determinou a censura prévia do “Estadão” e de seu site na Internet.

E foi exatamente o veto à livre informação na rede mundial de computadores que baseou o pedido do advogado Miguel Arcanjo César Guerrieri. Atuando em causa prórpia, ele argumentou que a decisão de Dácio Vieira impôs um obstáculo ilegal a sua “liberdade de locomoção pelos sítios informativos”.

Segundo o decano do STF, entretanto, “a ação de habeas corpus destina-se, unicamente, a amparar a imediata liberdade de locomoção física das pessoas”. Para Celso de Mello, o HC tem finalidade específica, proteger o direito de ir e vir, e não pode ser utilizado para defender o “corpo eletrônico, virtual ou psíquico”, como descreveu Guerrieri no pedido.

Leia aqui a íntegra do despacho de Celso de Mello.