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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

SUPREMO ARQUIVA HABEAS CORPUS CONTRA CENSURA AO ''ESTADÃO'' NO CASO SARNEY


William Maia - 10/08/2009 - 21h00

O ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), arquivou um pedido de habeas corpus contra a decisão judicial que proibiu o jornal “O Estado de São Paulo” de publicar notícias sobre a operação Faktor (ex-Boi Barrica) da Polícia Federal. Celso de Mello considerou que o HC não é o instrumento jurídico adequado para questionar a decisão. Com isso, o jornal continua proibido de noticiar o caso.

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A investigação tem como principal alvo o empresário Fernando Sarney, filho do senador José Sarney (PMDB-AP). Ambos foram flagrados em interceptações telefônicas da operação, posteriormente divulgadas pelo jornal, negociando um cargo no Senado para o namorado de uma neta de Sarney.

Depois da publicação dos grampos, o desembargador Dácio Vieira, do TJ-DF (Tribunal de Justiça do Distrito Federal), atendeu a pedido de Fernando Sarney e determinou a censura prévia do “Estadão” e de seu site na Internet.

E foi exatamente o veto à livre informação na rede mundial de computadores que baseou o pedido do advogado Miguel Arcanjo César Guerrieri. Atuando em causa prórpia, ele argumentou que a decisão de Dácio Vieira impôs um obstáculo ilegal a sua “liberdade de locomoção pelos sítios informativos”.

Segundo o decano do STF, entretanto, “a ação de habeas corpus destina-se, unicamente, a amparar a imediata liberdade de locomoção física das pessoas”. Para Celso de Mello, o HC tem finalidade específica, proteger o direito de ir e vir, e não pode ser utilizado para defender o “corpo eletrônico, virtual ou psíquico”, como descreveu Guerrieri no pedido.

Leia aqui a íntegra do despacho de Celso de Mello.


GOVERNO JÁ ADMITE REABRIR AÇÃO CONTRA SARNEY


O Globo

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto já admite que as investigações sobre o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), no Conselho de Ética, serão reabertas quando for a julgamento o recurso que a oposição apresentará nos próximos dias, conforme reportagem de Gerson Camarottina edição desta segunda-feira do jornal O GLOBO.

Na última semana, o presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ), determinou o arquivamento sumário de todas as ações contra o senador. Apesar de contar com a retomada da apuração, o governo recebeu indicações de que sua base, inclusive o PT, não permitirá que a análise das representações seja transformada num processo de cassação.


Segundo a reportagem, governistas e integrantes da oposição tentam agora levar a crise do plenário do Senado para o Conselho. Senadores ouvidos pelo GLOBO no fim de semana apontaram que essa pode ser a "saída honrosa" para tentar diminuir o clima de tensão que tomou conta da Casa. O presidente Lula foi informado de que a bancada petista trabalhará para solucionar a crise.





MOVIMENTO "FORA SARNEY" PREPARA MANIFESTAÇÕES EM TODO O PAÍS

da Folha Online

O movimento "Fora Sarney" prepara para o próximo sábado protestos em diversas cidades do país pela saída do senador José Sarney (PMDB-AP) da presidência do Senado. O movimento tem um perfil no Twitter e uma página na internet.

As manifestações serão realizadas a partir das 14h simultaneamente em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Goiânia, Maringá, Londrina, Curitiba, Vitória e Recife.

Em São Luís, o protesto será realizado a partir das 9h, na praça João Lisboa. O horário diferente é devido à concentração de pessoas no centro da cidade aos sábados.

Os organizadores pedem que as pessoas vistam roupa preta e levem faixas, cartazes e bandeiras do Brasil.

No mês passado, o movimento realizou uma "passeata virtual" pedindo a saída de Sarney da presidência. Na ocasião, os integrantes do movimento enviaram um banner por e-mail, SMS, além de mensagens no Twitter, em blogs e em sites incluindo o termo "Fora Sarney! #forasarney" em protesto contra a permanência do peemedebista no comando da Casa. Também foram enviadas mensagens para os senadores.

Sarney sofre pressão para deixar a presidência do Senado por suspeita de tráfico de influência, ocultação de informações à Justiça Eleitoral, responsabilidade pelos atos secretos, além de supostas irregularidades na Fundação José Sarney, envolvida em denúncias de irregularidades com a Petrobras. Sarney nega as acusações.

Na semana passada, o presidente do Conselho de Ética do Senado, Paulo Duque (PMDB-RJ), rejeitou as 11 acusações contra Sarney que foram apresentadas ao colegiado. A oposição promete recorrer da decisão de Duque.


PRESIDENTE DO TSE AUTORIZA SUPREMO A JULGAR RECURSO CONTRA POSSE DE ROSEANA


Coligação do ex-governador Jackson Lago defende nova eleição no MA.
Lago foi cassado pelo TSE; Roseana Sarney tomou posse em abril.

Diego Abreu
Do G1, em Brasília

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, decidiu nesta segunda-feira (10) autorizar o Supremo Tribunal Federal (STF) a analisar um recurso protocolado pela coligação do governador cassado do Maranhão, Jackson Lago (PDT), contra a posse da segunda colocada na eleição de 2006, Roseana Sarney (PMDB).

No recurso, a coligação do pedetista pede que o Supremo analise se o TSE agiu corretamente na decisão em que determinou a posse de Roseana, em vez de convocar novas eleições no Maranhão. No recurso, a coligação defende a realização de nova eleição no estado. Em abril, o TSE cassou os mandatos de Jackson Lago e de seu vice, Luiz Carlos Porto (PPS), por abuso de poder político. No mesmo mês, Roseana assumiu o governo.

Cabe ao presidente do TSE analisar se os recursos protocolados contra decisões da Corte Eleitoral podem ou não ser remetidos para análise do STF, instância máxima do Poder Judiciário no país. Esses recursos só podem ser encaminhados para apreciação da mais alta Corte caso questionem decisões que possam ter ofendido a norma constitucional.

Durante a análise das ações protocoladas contra a cassação de Jackson Lago, o ministro Ayres Britto negou a subida de outros recursos para o Supremo. Entre os que foram rejeitados, está o que questionava a competência do TSE para julgar recursos contra expedição de diplomas e o que pedia o reconhecimento de eventual “desrespeito aos parâmetros da razoabilidade e proporcionalidade” por parte do TSE.

UM TERÇO DOS SENADORES ENFRENTA CASOS NA JUSTIÇA

Crise no Senado

Um em cada três senadores é alvo de inquéritos, ações penais ou acusações de irregularidades eleitorais ou cíveis, afirma reportagem desta segunda-feira no jornal Folha de S. Paulo. As denúncias, que não levam em conta litígios de natureza particular ou movidos somente por adversários políticos, vão desde suposta compra de votos até uso de trabalho escravo e contrabando.

De acordo com os dados levantados pelo jornal, 27 dos 81 senadores brasileiros enfrentam pelo menos algum caso na Justiça. Do total de parlamentares com ocorrências, 10 pertencem à oposição e 17 à base aliada. O PMDB é o partido com o maior número de senadores implicados. De uma bancada de 19 congressistas, 8 estão envolvidos em denúncias (42%).

Um deles é Wellington Salgado (PMDB-MG), aliado do presidente do Senado, José Sarney. Segundo o jornal, ele é acusado de crime contra a ordem tributária e apropriação indébita previdenciária. Outro membro da chamada "tropa de choque" governista e de Sarney, Gim Argello (PTB-DF), está sendo investigado por apropriação indébita, peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Também respondem a inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal) o vice-presidente do Senado, Marconi Perillo (PSDB-GO), por irregularidade em licitação pública e crime contra a administração; e Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), acusado de contrabando ou descaminho. João Ribeiro (PR-TO), por sua vez, é alvo de inquérito sobre uso de trabalhador em condição análoga à escravidão.


PF FAZ OPERAÇÃO CONTRA FRAUDES EM LICITAÇÕES DE OBRAS DO PAC


Valor Online

BRASÍLIA - A Polícia Federal (PF) investiga fraudes em licitações envolvendo recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Durante a Operação Pacenas, desencadeada hoje, agentes da PF cumprem 11 mandados de prisão e 22 de busca e apreensão em Cuiabá, além de cinco mandados de busca e apreensão em São Paulo, três em Goiânia e um no Distrito Federal.

O nome da operação faz referência à empresa pública responsável pelos procedimentos licitatórios, a Companhia de Saneamento da Capital (Sanecap), que atua na capital mato-grossense. Se for lida ao contrário, a sigla se torna Pacenas.

As investigações começaram em 2007, após denúncias do Tribunal de Contas da União (TCU), do Ministério Público da União e do Ministério Público do Estado de Mato Grosso. De acordo com nota da PF, as fraudes ocorriam por meio da indução de editais que direcionavam empresas por meio de cláusulas consideradas restritivas.

"Denúncias anônimas davam conta de que as empresas já eram vencedoras das licitações mesmo antes do procedimento licitatório, pois os concorrentes ajustavam o conteúdo das propostas previamente, oferecendo pagamentos em dinheiro e parte dos contratos firmados com a prefeitura", afirma a PF.

Na nota, a Polícia Federal destaca que as empresas que fazem parte do esquema contam com "grande força política", uma vez que pertencem a políticos conhecidos no estado de Mato Grosso. Dentre as irregularidades encontradas pelo TCU estão preços acima dos cobrados no mercado.

Os envolvidos podem responder pelos crimes de fraude à licitação, advocacia administrativa e formação de quadrilha. As penas variam de três meses a três anos de prisão, além de multa.

(Agência Brasil)


domingo, 9 de agosto de 2009

PENA OU DESPREZO?

Por Clóvis Rossi:

SÃO PAULO - Chego a sentir certa pena do senador Aloizio Mercadante, o líder do PT no Senado, quando ele diz que o motivo que o levou a fugir do plenário na quinta-feira é este: "Não queria ver minha foto naquela moldura".

Pena, senador, que sua foto já esteja naquela moldura desde que aceitou silenciosa, mas gostosamente, a aliança de seu partido com algumas das figuras mais deploráveis da política brasileira.

Ou Mercadante não participou ativamente da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, ano em que Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello estavam lado a lado, praticando as infâmias arquiconhecidas?

Não creio que o senador petista tenha uma formação tão religiosa que lhe permita acreditar no arrependimento dos pecadores. Portanto, só aceitou conviver e ser "companheiro" de Collor e Renan (para não citar uma bela quantidade de outros não menos deploráveis) em nome de agarrar-se ao poder a qualquer custo, mesmo que seja um custo deplorável.

Mercadante foi, durante as campanhas presidenciais do PT, a melhor fonte sobre assuntos econômicos. E melhor aí é, sim, juízo de valor, embora muita gente, inclusive no próprio partido, faça severas restrições aos conhecimentos do hoje senador.

Muito bem. Após a posse, Mercadante foi escanteado. Um dia, em almoço no Itamaraty para o então primeiro-ministro japonês Junichiro Koizumi, sentamos à mesma mesa e ele me disse que se sentia "emparedado", porque tinha críticas, mas a lealdade ao chefe o impedia de fazê-las.

Calou-se tanto, renunciou tanto a pensar com a própria cabeça que termina obrigado a homiziar-se em seu gabinete para não aparecer na foto ao lado do "companheiro" Renan, sob a presidência do "companheiro" Sarney. Merece piedade ou desprezo?


RIVAIS DE SARNEY NEGOCIAM DESARQUIVAMENTO DE AÇÃO

Articulação envolve lideranças do PSDB, do DEM e do PT
Focam no caso da contratação de um namorado da neta
Por Josias de Souza

Com um par de manobras, o suplente de suplente Paulo Duque retirou José Sarney da grelha do Conselho de (a)Ética do Senado.

Na quarta (5), Duque mandou ao arquivo quatro das 11 ações protocoladas contra Sarney. Na sexta (7), engavetou as outras sete.

Decididos a devolver Sarney ao espeto, lideranças do PSDB e do DEM abriram uma negociação com Aloizio Mercadante, o líder do PT.

Juntos, tucanos e ‘demos’ dispõe dos cinco votos necessários para recorrer contra as decisões de Paulo Duque (PMDB-RJ).

De posse dos recursos, Duque é obrigado a submeter os arquivamentos a uma votação no conselho. Porém...

Porém, para que as ações sejam reabertas são necessários oito votos. Placar que a oposição só atingirá se contar com o reforço dos três votos petistas no conselho.

Em reuniões reservadas e em contatos telefônicos, Aloizio Mercadante mostra-se disposto a ajudar. Age movido pela vontade da maioria de sua bancada.

A despeito da adesão de Lula ao “fica Sarney”, pelo menos sete senadores do PT advogam a tese do afastamento de Sarney. Uma licença, não a renúncia.

Na última quarta (5), antes da reunião em que Duque anunciou o engavetamento das primeiras quatro ações, Mercadante reuniu-se com um par de ‘demos’.

Foram ao gabinete do líder do PT Demóstenes Torres (GO) e José Agripino Maia (RN), líder do DEM.

Nessa conversa, Mercadante reiterou o que dissera em outra reunião que ocorrera na véspera, no gabinete do presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE).

O líder do PT disse que não está de acordo com o arquivamento linear de todas as denúncias que assediam Sarney.

Afirmou que tampouco concorda com a reabertura de todas as representações. Comprometeu-se com a análise criteriosa, caso a caso.

Depois, em diálogos privados que manteve com outros grão-petistas, Mercadante mostrou-se disposto a ressuscitar apenas uma das ações.

Refere-se à nomeação, por meio de ato secreto, do namorado de uma neta de Sarney. Coisa documentada em grampos realizados pela Polícia Federal.

As escutas registram uma triangulação de conversas das quais participaram José Sarney e o filho Fernando Sarney.
A voz do presidente do Senado soa nítida no grampo. Concorda com o pedido de contratação do namorado da neta, que já se encontrava com Agaciel Maia.

Oito dias depois do último diálogo, o namorado da neta foi pendurado, secretamente, na folha de pagamento do Senado.

No discurso de autodefesa que pronunciou na tribuna, Sarney não teve como negar o fato. Limitou-se a realçar dois detalhes:

1. A divulgação do som dos grampos, colhidos numa operação policial chamada Boi Barrica, fora ilegal.

2. Não há nos diálogos menção a ato secreto. Com isso, tenta acomodar o malfeito na conta do ex-diretor-geral do Senado.

Em conversa telefônica que manteve com o tucano Sérgio Guerra, na manhã de sexta (7), Mercadante reiterou o descompromisso com o arquivamento em bloco.

Nos próximos dias, tucanos e ‘demos’ vão a Mercadante para cobrar a entrega da mercadoria: três votos petistas no Conselho de (a)Ética.

Resta agora saber se o petismo terá peito para desagradar Lula e para comprar briga com Renan Calheiros (AL), o líder do PMDB.

Renan acomodara Paulo Duque, um soldado de sua milícia parlamentar, na presidência do conselho para evitar dissabores a Sarney.

Duque não se afastou do script um milímetro. Os recursos da oposição já eram esperados. O que Renan não admite é a “traição” do PT.

Supondo-se que Mercadante leve às últimas conseqüências a aliança tática com a oposição, Sarney será apartado da cadeira de presidente na marra.

Desengavetando-se uma ação, o mandachuva do Senado terá dez dias para apresentar defesa. E Duque será compelido a indicar um relator para o processo.

A escolha do relator marca a abertura oficial da ação. E uma resolução do Senado, que leva o número 20, estabelece o seguinte:

Quando o senador alvo de investigação é membro da Mesa diretora, impõe-se o seu afastamento do cargo até que o caso seja julgado em termos definitivos.

Embora tenha preparado recursos contra os 11 arquivamentos, a oposição dá-se por satisfeita com a reabertura solitária do caso do namorado da neta.

Basta um processo para que o objetivo da bancada anti-Sarney se concretize: o afastamento temporário do presidente.

Dá-se de barato no Senado que, uma vez retirado da cadeira, Sarney não volta. Com isso, imaginam todos, o Senado passaria a respirar novos ares. Será?


OAB DEFENDE RENÚNCIA COLETIVA NO SENADO PARA PÔR FIM A CALAMIDADE INSTITUCIONAL


CRISE SEM FIM

Da Redação - 07/08/2009 - 16h39
O presidente do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto, defendeu nesta sexta-feira (7/8) a renúncia coletiva de todos os integrantes do Senado Federal como forma de pôr fim a um “estado de calamidade institucional” que teria se instalado na Casa. Segundo Cezar Britto, a crise “não se resume ao presidente da Casa, embora o ponha em destaque; é de toda a instituição e envolve acusados e acusadores".

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Para o presidente nacional da Ordem, a situação no Senado atingiu um nível “intolerável”, com a quebra de decoro parlamentar “protagonizada pelas lideranças dos principais partidos, com acusações recíprocas de espantosa gravidade e em baixo calão, que constrange e envergonha a nação”.

Na sessão de ontem, um bate-boca entre os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Tasso Jereissati (PSDB-CE), descambou para baixaria, com xingamentos mútuos e palavras de baixo calão. Os dois estão em lados opostos sobre a situação do presidente da Casa, senador José Sarney (PMDB-AP), alvo de diversas denúncias no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar.

No final de 2006, a OAB entregou ao Congresso uma proposta de reforma política que inclui a instituição de um sistema de “recall”, em que o eleitor poderia revogar o mandato do político que não cumpriu suas promessas de campanha. Na nota pública divulgada hoje, Cezar Britto reconhece que a sociedade ainda não dispõe de instrumentos legais para solucionar a crise e aponta a renúncia coletiva como única saída.

“O ideal seria a renúncia dos senadores. Como não temos meios legais de impor esse ideal —único meio de sanear a instituição—, resta pleitear que se conceda algum espaço à reforma política, senão para salvar o atual Congresso, ao menos para garantir o futuro”, afirma.

Confira a seguir a íntegra da nota pública da OAB:

"O Senado está em estado de calamidade institucional. A quebra de decoro parlamentar, protagonizada pelas lideranças dos principais partidos, com acusações recíprocas de espantosa gravidade e em baixo calão, configura quadro intolerável, que constrange e envergonha a nação. A democracia desmoraliza-se e corre risco.

A crise não se resume ao presidente da casa, embora o ponha em destaque. Mas é de toda a instituição - e envolve acusados e acusadores. Dissemina-se como metástase junto às bancadas, quer na constatação de que os múltiplos delitos, diariamente denunciados pela imprensa, configuram prática habitual de quase todos; quer na presença maciça de senadores sem voto (os suplentes), a exercer representação sem legitimidade; quer na constatação de que não se busca correção ética dos desvios, mas oportunidade política de desforra e de capitalização da indignação pública.

Não pode haver maior paradoxo - intolerável paradoxo - que senadores sem voto integrando o Conselho de Ética, com a missão de julgar colegas. Se a suplência sem votos já é, em si, indecorosa, torna-se absurda quando a ela se atribui a missão de presidir um órgão da responsabilidade do Conselho de Ética.

Em tal contexto, urge fornecer à cidadania instrumentos objetivos e democráticos de intervenção saneadora no processo político. A OAB encaminhou recentemente ao Congresso Nacional, no bojo de proposta de reforma política, sugestão para que o país adote o recall - instrumento de revogação de mandatos, aplicável pela sociedade a quem trair a delegação de que está investido.

Trata-se de instrumento já testado em outras democracias, como a norte-americana, com resultados positivos. O voto pertence ao eleitor, não ao eleito, que é apenas seu delegado. Traindo-o, deve perder a delegação. Não havendo, porém, tal recurso na legislação brasileira, prosperam discursos oportunistas, como o que sugere a extinção do Senado. A OAB é literalmente contra a extinção do Senado.

O Senado não pode ser confundido com os que mancham o seu nome. Precisa ser preservado, pois é o pilar do equilíbrio federativo. Diante, porém, do que assistimos, a sociedade já impôs à presente representação o recall moral. O ideal seria a renúncia dos senadores. Como não temos meios legais de impor esse ideal - único meio de sanear a instituição -, resta pleitear que se conceda algum espaço à reforma política, senão para salvar o atual Congresso, ao menos para garantir o futuro.

CEZAR BRITTO

PRESIDENTE DO CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL"


''CENSURA E CRISE PODEM LEVAR A AUTORITARISMO''


Estudiosa da história da imprensa lembra que no passado era o Executivo que impunha restrições a jornais brasileiros

Wilson Tosta

Doutora em sociologia com especial interesse pela área de história da imprensa, a pesquisadora Alzira Alves de Abreu, da Fundação Getúlio Vargas, se escandalizou com a proibição ao Estado de veicular informações sobre Fernando Sarney - filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) -, imposta pelo desembargador Dácio Vieira, do Distrito Federal, no último dia 30. A pesquisadora lembra que, no passado, as restrições aos meios de comunicação brasileiros partiram do Executivo e ocorreram em regimes de exceção. E vê perigo de a censura à imprensa e a crise do Senado apontarem para um regime autoritário, com restrições ao exercício do jornalismo, como, segundo ela, começa a ocorrer em outros países da América Latina, como a Venezuela. "Esses políticos não estão se dando conta do que estão preparando para o futuro", diz, alarmada.

VOLTA DA CENSURA

"Acho lamentável. Lembro de uma frase do (filósofo italiano) Norberto Bobbio, que diz que a regra da democracia é a publicidade e não o segredo; a luz, não a escuridão. Me parece que (as sentenças proibindo jornais de abordar certos assuntos) são decisões muito complicadas, que comprometem muito o regime democrático. Isso me assusta muito."

SEGREDO DE JUSTIÇA

"O sigilo teria que ser dado no processo judicial. Na medida em que a imprensa recebeu a informação, é obrigada a dá-la ao público. Se alguém tem que ser punido, é quem vazou a informação que não podia ser dada. O cidadão precisa da informação. Sem isso, como é que se faz, como se forma a opinião? Na democracia, o julgamento dos atos do governo é feito através da divulgação da informação. E cabe à imprensa esse papel. Então, acho que (a censura prévia) não se justifica. E é mais lamentável ainda que venha da Justiça."

CENSURA NO PASSADO

"É um juiz ligado ao próprio interessado no assunto. Isso é muito complicado. Agora, acho que tinha que ter uma manifestação maior por parte de toda a imprensa, por parte da ABI, por parte da OAB... Eu estava lembrando disto hoje: como a gente tem uma tradição de momentos de ruptura, de censura à imprensa. A gente - sem falar para trás - tem, desde 32, o empastelamento do Diário Carioca; em 37, o Estado Novo; em 64... A gente tem uma experiência muito ruim, de momentos de ruptura, em que se tenta calar a democracia, a imprensa. (...) Foram sempre momentos em que entrou um regime autoritário, um momento de autoritarismo, de ditadura, em que o Executivo agia para impedir a manifestação da imprensa, em vários momentos com a conivência do Judiciário. Tanto em 37 como em 64 houve conivência do Judiciário na implantação da censura. Hoje, isso está partindo do Judiciário, o que é muito grave. Isso tem que ser dito. E como se informa o cidadão? Os atos de governo, o cotidiano da política, a atuação dos políticos, dos homens públicos? Tudo isso tem que ser feito através da imprensa, não tem outra forma."

JUVENTUDE

"O que me preocupa muito no desenrolar desses acontecimentos é: que geração estamos preparando? O que o jovem vê nisso tudo? Como é que ele vai se posicionar diante da política, diante de um Congresso, de uma Câmara de Deputados, de um Senado? Isso é muito preocupante. O que estamos preparando para o futuro? Acho gravíssimo."

RESPONSABILIDADE

"A imprensa está no papel dela. Sem esquecer que a imprensa divulga, muitas vezes, informações de acordo com suas posições políticas, o jornalista também tem posições políticas, tem visões ideológicas, que o fazem se posicionar deste ou daquele lado.Tem que ter cuidado com isso, quando se quer destruir uma personalidade porque se é contra ela. O papel e a responsabilidade do jornalista também são muito importantes."

INSULTOS NO SENADO

"Fico sempre pensando assim: nós já temos uma formação política etc, mas... E esse pessoal jovem, que está assistindo a isso na televisão, que está lendo isso no jornal? Qual é a repercussão disso para o futuro? Sabe, isso é que me preocupa muito. Não para mim, para pessoas da minha geração, que têm uma posição já definida, que defendem a democracia, mas para o pessoal que está vindo, está chegando, que lê isto... O que que é isso? Essas pessoas não estão preocupadas com isso."

DESCRÉDITO

"As pessoas dizem: ?Para que esse Senado? Gasta tanto dinheiro...? Isso é que me preocupa... Daqui a pouco dizem: ?Fecha a Câmara! Fecha o Senado! Para quê? Bota censura na imprensa...? Isso preocupa muito. Vivi o último regime autoritário, não posso defender isso. Há um desinteresse muito grande de parte da população. Não toda, há nichos que ainda estão preocupados, acompanhando. Tudo isso tem que ser levado em consideração, as pessoas estão muito apáticas. Esses políticos não estão se dando conta do que estão preparando para o futuro."

TARSO E CENSURA

"O Executivo, a meu ver, está dando um péssimo exemplo. Porque está justificando não atuar dentro da lei. Isso é preocupante. Porque, se é o próprio Executivo, se são os ministros, se é o presidente, que passam essa mensagem, que democracia é essa que vamos ter? Acho que se está desmoralizando não só o Congresso, como o regime democrático."

FUTURO

"Acho que pode apontar para um regime autoritário. Pode... Por que não? Olhe o que está acontecendo na Venezuela... Não está começando a haver movimentos autoritários na América Latina? Começo a olhar isso com alguma preocupação... Equador, Venezuela... Sabe? Começam a haver claramente indícios de controle. Não é tão aberto ainda, mas são momentos que a gente percebe. Espero que não."